A terra e a água
Há lugares cuja história está escrita na paisagem antes de estar escrita nos livros. Arambaré é um deles. A cidade nasceu e cresceu agarrada à margem oeste da Lagoa dos Patos, sobre a faixa de areia da planície costeira gaúcha, onde a água doce encontra o campo aberto. São quase quinze quilômetros de praias de água mansa, dunas baixas e vegetação de restinga, recortados por banhados, butiazais e figueiras centenárias.
Foi essa generosidade natural — a lagoa farta de peixes, os campos bons para o gado, a terra plana à beira d'água — que decidiu o destino do lugar muito antes de existir um nome ou uma cidade. Quem chegava ficava. E quem ficava aprendia, como os primeiros habitantes já sabiam, que ali a vida sempre dependeu de saber ler a água.
Não por acaso, Arambaré é a terra das figueiras centenárias. No coração da cidade está a Figueira da Paz, uma árvore imensa cuja idade se estima entre quatro e sete séculos — viva, portanto, desde antes de qualquer colonizador desembarcar nestas margens. Ela é hoje o símbolo maior da cidade: uma testemunha que atravessou todas as eras desta história.
Antes das cercas e das estâncias
Muito antes das cercas e das estâncias, estas margens já tinham dono. A região da Lagoa dos Patos foi, por milhares de anos, território de povos pescadores, caçadores e coletores que viviam junto aos banhados e dependiam dos recursos da água.
Com o tempo chegaram outros povos. Os Guarani, ramo dos chamados Tape, ocuparam as margens dos grandes rios e da lagoa; os Charrua e os Minuano percorriam o pampa aberto. Na faixa oeste da Lagoa dos Patos — exatamente onde hoje está Arambaré — a tradição local situa os Arachãs, ou Arachanes, descritos como gente de costumes próprios, pescadores e comerciantes de peles. Diz a memória popular que foi dessa presença indígena que veio o próprio apelido da grande lagoa: a Lagoa dos Patos. É uma história bonita, repetida de geração em geração — e, como tantas origens, guardada mais pela tradição do que pelos documentos.
O que os estudos confirmam é o essencial: quando os primeiros europeus apontaram nestas águas, encontraram uma terra já habitada, já nomeada, já vivida.
O nome Arambaré
Poucas coisas dizem tanto sobre um lugar quanto a trajetória do seu nome — e a de Arambaré tem três capítulos.
Primeiro foi Barra do Velhaco, em referência à foz do Arroio Velhaco, o riacho que deságua na lagoa. O termo "velhaco" remetia ao gado xucro e selvagem — o "gado velhaco" — que se multiplicou pelos campos depois que as antigas reduções jesuíticas da região foram desfeitas, no século XVIII.
Em fins da década de 1930, a localidade ganhou o nome de Paraguassu, já como distrito de Camaquã. E, em 1945, recebeu enfim o nome que carrega até hoje: Arambaré, de raiz tupi-guarani.
O que significa Arambaré? Aqui a história admite o mistério. A versão mais difundida, repetida pelas fontes oficiais, traduz o nome de forma poética como "o sacerdote que espalha luz". Outras leituras falam em "bruma" ou "névoa". Nenhuma delas tem comprovação linguística definitiva — e talvez seja melhor assim. Há nomes que pertencem menos aos dicionários e mais ao imaginário de quem os pronuncia. Arambaré é um deles.
Fazendas, charqueadas e gado
A ocupação europeia destas margens faz parte de um movimento maior: o povoamento da costa da Lagoa dos Patos ao longo do século XVIII. Por volta de 1763, casais açorianos — vindos das ilhas dos Açores rumo ao extremo sul do Brasil — estabeleceram-se na margem direita da lagoa, fundando fazendas e charqueadas que se estendiam até o rio Camaquã. Traziam consigo o ofício do campo, a fé católica e o costume de transformar a terra e o gado em sustento.
A memória histórica local acrescenta a esse quadro a figura das sesmarias e o nome da família Ornellas — a mesma estirpe de Jerônimo de Ornellas, fundador de Porto Alegre. Conta-se que, por volta de 1780, suas filhas se instalaram na região do Velhaco, dando início à exploração da terra e à criação de gado destinado às charqueadas. São relatos preservados pela tradição e pela pesquisa dos historiadores locais, que ajudam a desenhar a origem das primeiras estâncias da região.
Daquele tempo nasceu a primeira vocação econômica de Arambaré: a pecuária e o charque — a carne salgada e seca que abastecia o Brasil e era escoada, como quase tudo então, pela água.
O porto e a navegação
Por boa parte de sua história, Arambaré viveu de costas para a estrada e de frente para a água. Antes que existissem rodovias, a Lagoa dos Patos era a grande avenida do sul: por ela vinham os passageiros, partiam as mercadorias e circulava a vida econômica da região.
A Barra do Velhaco funcionava como porto. Na beira da praia, carroças e carretas formavam fila junto aos trapiches, carregando sacas de arroz nos barcos que faziam o trajeto até Porto Alegre. Empresas de navegação cruzavam a lagoa levando a produção local; ainda hoje, dizem os antigos, é possível avistar as estacas fincadas onde um dia atracaram os vapores.
Foi esse vaivém de barcos — o gado e o charque nos séculos XVIII e XIX, o arroz no século XX — que fez o povoado existir e prosperar. A lagoa não era apenas paisagem: era a razão de ser do lugar.
A conquista do município
No início do século XX, a economia da região começou a mudar de feição. As terras planas e úmidas à beira da lagoa revelaram-se ideais para a lavoura de arroz irrigado, e, ainda no fim dos anos 1930, surgiram os primeiros engenhos de beneficiamento na então Paraguassu. O arroz tornou-se o novo motor da economia, e a navegação, sua principal via de escoamento.
Por décadas, Arambaré seguiu como distrito de Camaquã, acumulando gente, comércio e identidade própria. Até que, em 20 de março de 1992, pela Lei Estadual nº 9.603, o distrito conquistou sua emancipação, desmembrando-se de Camaquã e de parte de Tapes para nascer como município. No ano seguinte, em 1º de janeiro de 1993, instalava-se oficialmente a primeira administração da nova cidade. Desde então, 20 de março é a data em que Arambaré celebra seu aniversário.
O município nasceu com dois distritos — a Sede, à beira da lagoa, e Santa Rita do Sul, no interior — e com um gentílico que seus filhos carregam com orgulho: arambarense.
Campo, água e verão
A Arambaré de hoje guarda, em equilíbrio, as três vocações que a história lhe deu.
Do campo vêm o arroz e a soja, que sustentam a economia e fazem da agropecuária a principal atividade do município — celebrada a cada ano em sua feira agropecuária.
Da água vem a pesca artesanal, herança direta dos primeiros habitantes: ali, na faixa estuarina da Lagoa dos Patos, ainda se pescam tainha, bagre e corvina, no ritmo das colônias de pescadores.
E da combinação das duas nasceu a vocação mais recente e mais visível: o turismo de veraneio. No verão e no carnaval, as praias de água doce — a Costa Doce, o Caramuru, a Prainha, as Dunas da Lua de Natal — recebem visitantes de todo o estado, atraídos pelas águas calmas e rasas, ideais para as famílias. A chegada do asfalto, com a pavimentação da estrada que liga Camaquã a Arambaré a partir de 2013, encurtou distâncias e abriu de vez a cidade ao restante do Rio Grande do Sul.
Hoje, com pouco mais de quatro mil habitantes espalhados por cerca de 518 quilômetros quadrados, Arambaré é uma cidade pequena no tamanho e grande na história. Uma terra que começou nas mãos de povos que sabiam ler a lagoa, passou pelos açorianos e suas charqueadas, viveu do porto e do arroz, e hoje se reinventa como destino de quem busca, à beira da Lagoa dos Patos, o reencontro com a natureza, o descanso e as raízes.
Sob a sombra da velha Figueira da Paz, a história de Arambaré continua a ser escrita.
